É possível praticar exercícios físicos de máscara sem prejuízos à saúde?

O Conteúdo

Em março deste ano a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o estado de pandemia de Covid-19. Desde então, muitas recomendações foram dadas para minimizar o contágio e em busca da redução das consequências do vírus Sars-CoV-2.

Por isso, neste artigo trataremos de duas dessas recomendações e como conciliá-las: o uso de máscaras e a prática de exercícios físicos – esta recomendada como medida por importantes instituições ligadas à saúde, como o Colégio Americano de Medicina do Esporte (ASCM), a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) e a própria OMS. 

Continue lendo para descobrir como é possível praticar exercícios físicos de máscara na busca por mais saúde e proteção.

Os benefícios da prática de exercícios físicos 

As organizações acima citadas atestam que a prática regular de exercícios físicos está associada a uma melhora da função imunológica em seres humanos. Embora atualmente não existam dados científicos sobre os efeitos do exercício em relação ao coronavírus, há evidências de que o exercício pode proteger o indivíduo de muitas outras infecções virais – como a influenza, o rinovírus (outra causa do resfriado comum) e outros. 

Nesse sentido, além da simples prática também é importante dar uma atenção especial à intensidade do exercícios, principalmente neste momento no qual muitos estavam ou estão sem praticá-los. Os exercícios de alta intensidade, se iniciados repentinamente, podem ser nocivos. Por isso, sua recomendação precisa de maiores investigações. 

Outro ponto relevante é o fato de que o exercício físico é especialmente benéfico para os idosos, pois trata-se de uma população mais suscetíveis a infecções em geral. Além disso, eles foram identificados como uma população particularmente vulnerável durante esse surto de Covid-19.

Nesse contexto, duas condições garantem uma melhor prática de exercícios: o acompanhamento de um Profissional de Educação Física e a realização de uma avaliação física prévia. Esta é especialmente relevante pois é através dela que podem ser colhidos dados sobre a condição do praticante no retorno às atividades, traçar um planejamento de treino e avaliar periodicamente os resultados dos exercícios.

Mas o que fazer quando surge e obrigatoriedade do uso de máscara em locais públicos? É realmente prejudicial fazer exercícios físicos de máscara? Continue lendo para descobrir.

Exercícios físicos de máscara: e agora?

O objetivo da obrigatoriedade do uso da máscara é reduzir a excreção respiratória de gotículas em indivíduos pré-sintomáticos e assintomáticos. Sabemos que existem discussões sobre as máscaras faciais serem eficientes para reduzir a propagação de vírus respiratórios, infecções e para a melhoria de resultados clínicos.

Apesar disso, a também inexistência de tratamentos ou vacinação comprovadamente eficazes contra a SARS-CoV2 faz com que as políticas de saúde precisem contar com intervenções não farmacológicas – como o distanciamento social, a higienização frequente das mãos e o uso de barreira facial (máscara). 

Para que ela seja eficaz nessa proteção, é obrigatório que todos pratiquem exercícios físicos de máscara. Outros cuidados também são recomendados: evitar tocar na parte frontal da máscara, ajustá-la pelas partes laterais e cobrir bem o nariz e boca (como praticante de exercícios, aqui vejo a recomendação mais descumprida). 

Ainda, após a prática é preciso higienizá-la ou até mesmo substituí-la, lavar sempre as mãos e usar álcool gel antes de levar a mãos ao rosto – uma vez que o vírus precisa de mucosas (como boca e nariz) para entrar no nosso organismo.

Dificuldades de praticar exercícios físicos de máscara

Durante a prática de exercícios físicos na quarentena surgem diversas dúvidas. Segundo os primeiros estudos sobre a temática, a função pulmonar é uma das mais afetadas pelos exercícios físicos de máscara. Isso acontece porque elas aumentam o tempo de inspiração (entrada do ar), o que ativa mais músculos acessórios dessa função e, consequentemente, acelera a fadiga destes.

Apesar disso, a expiração (saída do ar) não é comprometida pelo uso de máscara, o que indica que o temor de respirar dióxido de carbono (CO2) não tem fundamento. Ainda, temos que alguns índices de desempenho também ficam abaixo do normal como o pico do lactato.

Na prática, isso indica que devemos ter prudência ao iniciar a prática de exercícios físicos de máscara e que nossos “índices” como quilômetros que corremos ou peso que levantamos devem estar reduzidos com o uso da máscara. 

Contudo isso não deve ser motivo de alarde, visto que muitos estavam sem praticar atividade física, haviam reduzido o ritmo ou mesmo adaptado a prática às condições diferentes das habituais – o que por si só pode diminuir o desempenho.

Outro fato a se considerar é que esses índices citados anteriormente refletem marcas de desempenho, mas o corpo continua sofrendo as adaptações benéficas do exercício. Isso, por sua vez, pode ser mensurado por outros métodos avaliativos. Mas, é claro, nunca é demais lembrar da prudência que devemos ter nesse momento com a intensidade do treino. 

Outra queixa habitual ao realizar exercícios físicos de máscara é o incômodo que a mesma provoca durante a prática, uma vez que ela fica úmida e dificulta ainda mais a atividade. Nesse sentido, existem máscaras de diversos materiais e formatos. Com isso, o usuário deve escolher a que lhe proporciona menor incômodo. Veja abaixo como isso pode ser feito.

Opções para adaptar a prática de exercícios físicos de máscara 

Para práticas longas, como a corrida, o uso de máscaras que não aderem à boca pode ser recomendado. Quando a máscara fica “molhada”, além do problema de inspiração, sua proteção também diminui. Nesse caso, o ideal é realizar a substituição da mesma. Assim, algumas pessoas podem necessitar máscaras suplentes em decorrência de características pessoais, tipo de treinamento ou o ambiente no qual realizam a atividade. 

E quanto à sensação de mais calor? Alguns estudos mostram que a região da cabeça pode ter um aumento de 1°C em relação a quem não usa a máscara. Apesar disso, esse quadro não se repetiu em todos os participantes do experimento. Assim, fica reforçada a recomendação de se exercitar em ambiente arejado, com boa ventilação e temperatura, além de se hidratar antes, durante e após a atividade. 

Conclusão

Sabemos que as máscaras foram feitas para proteção, como é o objetivo nessa atual pandemia, e não para fazer exercícios. Portanto, mesmo que ela possa causar eventuais desconfortos e dificuldades, seu uso traz um efeito protetor cientificamente reconhecido.

Até o momento em que forem lançadas máscaras especiais com um perfil ótimo de performance e proteção, quem se exercita deve testar modelos até encontrar o que proporcione maior conforto. É importante lembrar, também, que a frequência pode trazer adaptação ao uso do implemento. 

E então, o que achou do panorama e das dicas apresentadas? Comente abaixo!

Welton Godinho é Professor Universitário (FVJ, Unifanor), Mestre em Fisiologia (ISCB\UECE), Presidente da Comissão Técnico-científica da Associação Cearense de Personal Trainer (ACEPT) e praticante de Exercícios Físicos (musculação) há 22 anos

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